quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Os óculos
Enquanto a avó procurava por toda a casa ele continuava sentado, mudando os canais da tv compulsivamente. Fingia não ouvir quando a velha lhe perguntava se tinha idéia de onde estavam seus óculos. Morava com a avó desde que mãe fora tentar a sorte na Europa. Abandonou a escola e passava os dias perambulando pelos bares da vizinhança. Nunca devolvia o troco do dinheiro para comprar pão e leite. Guardava-o para a cachaça. No princípio, odiara viver com a avó. Depois, acostumou-se e, aos poucos, foi transformando-a em sua empregada. Tratava-a com desdém, apesar dos mimos que o amor de vó lhe propiciava. Praticava pequenas crueldades com a velha, como se isto vingasse sua existência vazia. A avó parou em sua frente e disse: "acho que perdi meus óculos, não consigo achar. Sempre deixo na mesinha de telefone... Você não encontrou eles por aí?" "Não". Respondeu seco e a velha continuou a revirar os cômodos da casa em busca dos óculos perdidos. Ele desligou a tv, levantou-se do sofá, retirou os óculos do rosto e os colocou na mesinha do telefone, abriu a gaveta, pegou alguns trocados e foi para o bar.
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Arqº. Rodrigo Abreu
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domingo, 11 de outubro de 2009
Eucalipto
Comprou o terreno e, como queria morar no mato, tratou de projetar a casa de modo a preservar as árvores que já estavam lá. Mesmo sem intrometer-se no terreno destinado à edificação da casa, um portentoso eucalipto chamou-lhe a atenção. Ameaçava desabar ao primeiro vento mais forte das tempestades de verão. Tornou-se um dilema: a prudência o aconselhava levar o eucalipto ao chão. Pesava a favor da motosserra a madeira combustível para o meticulosamente desenhado fogão a lenha, jóia do projeto da “churrasqueira”. Por outro lado, a consciência ecológica e as convicções filosóficas o faziam exitar ante à derrubada da árvore. “Um ser vivo deste tamanho – pensava – merece um destino melhor do que o fogo”. Matutou, matutou, consultou a consciência, o tarô, horóscopo, o pajé, melhores amigos e a noiva. Esta decretou a sentença: “Corta essa droga de árvore! Ou você prefere que ela caia sobre a casa”? Desta forma, aconselhado pelo raro bom-senso feminino, decidiu pela derrubada do eucalipto. Na manhã seguinte muniu-se de capacete, luvas, camisa xadrez e uma motosserra zero quilômetros para por abaixo a árvore. Sentia-se como o carrasco prestes a decapitar um condenado. Às vezes pensava: “era ela ou eu”, como justificando-se perante o júri, alegando legítima defesa. Tentou fazer a motosserra pegar, gastou quase uma hora nisso. Sabotava-se. Adiava o momento em que a serra rodaria a plena potência, capaz de levar ao chão florestas inteiras. E, depois de conformar-se com a inutilidade de tal adiamento, resolveu deixar de tolices e terminar de vez com o serviço. Pelo menos, quando o fogão já estivesse construído, haveria lenha para um primeiro feijão. Mas, ao olhar para o topo do eucalipto, como num último adeus, viu que um casal de gaviões nidificava. Permaneceu por ali, observando o vai e vem dos gaviões trazendo ramos e pequenos galhos para a construção do ninho. Ora! Ele também estava ali a construir um ninho. Comprara o terreno, projetara a casa e estava prestes a derrubar o eucalipto que abrigava a família de gaviões. Sentiu remorso, culpa. Como poderia derrubar a árvore? Quem não gostaria de ter gaviões como vizinhos? Ver seus filhotes nascerem, arriscarem seus primeiros vôos até ganhar definitivamente os céus? Recebera um sinal: “Não tombarás a árvore”. Mas sempre havia o risco de uma tempestade por abaixo o eucalipto; na pior das hipóteses, sobre a casa. E a noiva, que já temia morar em uma palhoça para que nem uma touceira de capim fosse arrancada, abandonava o bom-senso e no pior momento da tensão pelo longo atraso da menstruação argumentava: “Eu quero que esses gaviões vão para a puta que os pariu e que você corte essa maldita árvore!” Matutou e matutou novamente, pediu aos céus, aos guias, à lua e ao sol, pediu até aconselhamento ao IBAMA. E, de tanto pensar, encontrou uma solução: “vou acorrentar o eucalipto”! E assim o fez: acorrentou o eucalipto. Contratou (por dez tequilas e um pernil de javali, totalmente legalizado) um amigo engenheiro que fez os cálculos para o melhor ajuste das correntes: “no máximo passa muito perto”. Comprou as correntes e num mutirão regado a Itaipava fez o serviço e de quebra inaugurou a cozinha. Batizaram a futura residência de “Ninho do Carcará”, nome que não agradou muito à noiva, por se tratar de uma ave que come até cobra queimada. Mas, como rosas, bombons, um novo par de sapatos e as congratulações gerais (principalmente da sogra) pelo futuro rebento fazem a vida mais fácil, relevou a brincadeira dos compadres. Os filhotes de gavião deixaram o ninho e as árvores plantadas em torno do eucalipto cresceram. No terreno agora havia um pomar, com crianças trepando nas árvores e comendo as frutas do pé. O tempo continuou a passar e os filhotes a deixar o ninho. Novas crianças brincavam no pomar e suas árvores agora eram grandes e fortes e o velho eucalipto firme e forte, sobressaindo no arvoredo. Suas correntes, gastas pelo tempo e pelas intempéries pediam de seu tronco como adornos enferrujados. O progresso dos arredores afugentara os gaviões. Há muito não nidificavam na grande árvore. O terreno agora se encontrava cercado pela urbe, como uma ilha verde em meio à cidade expandida. Mas ali ainda se relutava em cortar uma árvore, projetava-se medidas pouco ortodoxas para preservar o verde destoante na paisagem. Não se sabe se foi a urbanização mal planejada, o desmatamento ou o aquecimento global, mas naquele ano as tempestades de verão foram particularmente fortes. Houve enchentes, desabamentos e muitas árvores tombaram pela cidade afora. E numa dessas o eucalipto tombou também. Há muito tempo nada adiantavam as correntes, quase totalmente consumidas pela ferrugem. Quem salvou mesmo a casa foram as outras árvores. Robustas e resistentes amorteceram a queda, desviaram a trajetória e impediram que houvesse estrago maior do que as duas telhas partidas na varanda. O tempo amainou, fez-se céu de brigadeiro. Tomou a motosserra semi-nova e foi desgalhar o eucalipto. Trabalhou no tronco com o carinho de quem prepara um ente querido para os ritos fúnebres. Ajuntou a lenha para secar. Em torno do fogão a lenha, cozinhando o feijão e contando histórias sobre homens, árvores e gaviões comemora-se a chegada de uma nova criança para brincar no pomar. O velho eucalipto está presente, alimentando o fogo que celebra a vida.
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Arqº. Rodrigo Abreu
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Na estrada
Mesmo com o pesar do motivo, a viagem como um todo teve momentos muito interessantes. Um deles foi durante a volta (ontem), quando, na estrada, cruzamos com os atletas durante a competição da Volta São Paulo de Ciclismo, foi muito bonita... beleza aliás que não pôde ser transmitida na foto, que foi do celular e com muito movimento. E como podem ver, isso foi ao som de Van Halen!
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Arqº. Rodrigo Abreu
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Mar de Gente

Fiquei sozinho em casa essa semana. Se fosse há 5 ou 10 anos atrás iria adorar... ficar à vontade, encher a cara, festa all night long. Mas hoje em dia é um saco, não tem uma alma viva para conversar.
Mas hoje é sexta, dia de sossego. Então voltei meu cérebro para 10 anos atrás... E aqui estou eu, bebendo tequila a vontade, ouvindo (e vendo) um dvd do O Rappa bem alto... Sem a menor preocupação em ser poser e ficar bonito na foto.
Brindo à casa, brindo à vida, meu amores, minha família!!
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Arqº. Rodrigo Abreu
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